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Máximo Gorky Eram considerados fortes os ricos e todos acreditavam que somente o dinheiro pode dar ao homem poder e liberdade. Todos desejavam o poder porque todos eram escravos, o luxo dos ricos provocava o ódio e a inveja dos pobres, ninguém conhecia música mais bela que a do ouro; cada um deles era, desse modo, inimigo do outro, e a crueldade era dona e rainha absoluta. (...)
No meio da agitação sombria do desgosto e da infelicidade, na mescla convulsiva de avidez e necessidade, na vasa do lamentável egoísmo, nas caves dos prédios onde se alojava a pobreza que tinha estabelecido a riqueza da cidade, andavam, invisíveis, sonhadores solitários, cheios de fé no homem, estranhos a todos e distantes, propagadores da revolta, centelhas sediciosas do fogo recuado da verdade. Traziam secretamente com eles, para as caves, as minúsculas sementes de um ensinamento simples e grande e, ora austeros, com uma cintilação fria no olhar, ora ternos e cheios de amor, semeavam essa verdade clara e ardente no coração sombrio dos homens- escravos, dos homens a quem a força dos ávidos e a vontade dos cruéis tinham transformado em cegos e mudos instrumentos do lucro. (...) Na vida deles, cheia de um ódio contido, preso no coração envenenado por ofensas múltiplas, na consciência obstruída pela mentira envolvente da sabedoria dos fortes, nessa triste e penosa vida saturada pela amargura da humilhação, foi lançada uma palavra simples e clara: - Camarada! (...) Sentiam que esta palavra tinha vindo reunir o mundo inteiro, educar todos os homens ao nível da liberdade e uni-los por novos laços, pelos laços fortes do respeito mútuo, do respeito pela liberdade do homem. (...) - Camarada! Soava entre as palavras mentirosas do presente como o radioso anúncio do futuro, duma vida nova que se abria igualmente diante de todos, próxima ou longínqua... Sentiam que estava na sua vontade aproximarem-se da liberdade ou, por si próprios, retardar o seu advento. (...) Ela ria suave e timidamente, para não chorar de alegria, primeira emoção sentida pelo seu coração coberto de escarros. Os olhos que ontem, impudentes e ávidos, fixavam o mundo com um olhar estúpido de animal, brilhavam com lágrimas da primeira alegria pura. A alegria da comunhão dos réprobos com a grande família dos trabalhadores do mundo inteiro faiscava em todas as ruas da cidade, e os olhos embaciados das casas observavam-no com um ar cada vez mais frio e sinistro. O mendigo, a quem ontem se lançava, para o afastar, um miserável cópeque , preço da compaixão dos saciados, também ouvia a palavra e era para ele a primeira esmola que, alguma vez, provocara no seu pobre coração roído pela miséria um frémito de reconhecimento. O cocheiro de fiacre, um pândego a quem os viajantes batiam no cachaço para que ele transmitisse a pancada ao cavalo fatigado, esfomeado, esse homem tantas vezes espancado, embrutecido pelo estrondo das rodas no pavimento, também disse ao transeunte, com um sorriso aberto: - Posso deixar-te em qualquer parte, camarada! (...) - Camarada! Aqui, depois ali, surgia uma chamazinha destinada a arder no grande fogo que abrasará toda a terra com o sentimento resplandecente do parentesco de todos os homens; o sentimento que atingirá toda a terra e queimará, reduzirá a cinzas a cólera, o ódio e a crueldade que nos desfiguram, estreitará todos os corações e vazá-los-á no coração único do mundo, o dos homens sinceros e nobres, na família indissoluvelmente unida dos trabalhadores livres. Nas ruas da cidade morta construída por escravos, nas ruas da cidade onde reinava a crueldade, viu-se nascer e ganhar força a fé no homem, na sua vitória sobre si mesmo e sobre o mal no mundo. E nesse perturbado caos duma vida angustiada e sem alegria, brilhava, como uma estrela cintilante de felicidade, como um fogo que conduzia ao futuro, simples e vasta como o coração, a palavra: - Camarada! |