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Para o homem não morrer - ensaio sobre "As Vinhas da Ira", de John Steinbeck PDF 
“Os homens errantes, sempre em busca de alguma coisa, haviam-se tornado nómadas. As pessoas que até aí tinham vivido no seu pedaço de terra, que até então tinham vivido e morrido nos seus quarenta acres, que haviam comido deles ou neles passado fome, todas essas famílias tinham agora o Oeste inteiro, para nele vaguearem à vontade. E corriam pelo país fora, à procura de trabalho.”(Steinbeck 2002: 333)

Cláudia Santos

Para o homem não morrer, a mulher do seu peito deu a beber 

 Palavras-chave: Grande depressão – capitalismo – liberalismo económico - marxismo 

 Introdução John Steinbeck recebeu em 1962, pela obra As Vinhas da Ira, o prémio Nobel. Nasceu em Salinas, Califórnia a 27 de Fevereiro de 1902 e morre em 1968. Teve um percurso escolar irregular, tendo tido várias profissões que lhe serviram de inspiração aos seus romances. Foi jornalista em Nova Iorque e quando regressa à Califórnia inicia a sua carreira de escritor romancista. Escreve vários romances e ensaios. É caracterizado pela implicação crítica e pelo empenho social, no que toca à defesa das classes menos protegidas e na denúncia das classes poderosas, pela escrita.Ao longo do romance tem capítulos onde descreve a situação económica, social e politica dos Estados Unidos da América. 

No início era o sonho  A análise de um romance, As vinhas da Ira, de John Steinbeck, pode servir como um óptimo instrumento para compreender uma América deprimida, em profunda crise económica, em desigualdade social, em crise política que teve o seu início em 1929 e o término na Segunda Guerra Mundial. Este período foi considerado o de maior crise durante o século XX, não havendo outro igual na História. Esta crise acabou por afectar outros países entre eles a Alemanha, o Reino Unido, a França e especialmente o Canadá.Neste romance retrata-se uma família de camponeses do Oklahoma, que por dívidas contraídas à Banca, se vê forçada pelo mesmo a abandonar as suas pequenas terras “Os rendeiros estão a abandonar as terras – disse ele. – Cada tractor expulsa dez famílias. Há tractores por toda a parte, agora. Rasgam a terra e enxotam os rendeiros” (Steinbeck 2002:15). Face a esta situação de incumprimento no pagamento dos elevados juros, posterior expropriação e porque havia uma forte procura de trabalhadores rurais na Califórnia, partem em busca de uma nova vida. A Califórnia seria a terra da realização de um novo sonho, do novo início de vida familiar feliz, com trabalho, a casa para as mulheres e a escola para as crianças “ É que tudo me parece bom demais. Vi passar os distribuidores de impressos, que havia lá muito trabalho e bons salários e tudo mais; li no jornal que precisam de gente para a colheita de laranjas e dos pêssegos” (Steinbeck 2002: 105).A procura de trabalhadores rurais para a Califórnia prendia-se com a era pós-Primeira Guerra Mundial, que tinha provocado um aumento substancial na produção de produtos agrícolas “ Durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), a procura de colheitas americanas sofreu um aumento significativo, especialmente da Europa” (Mourão 2005:375). 

Diminuía o sonho, aumentava o medo Para a viagem partiram doze elementos, num carro muito velho e gasto que tinham comprado com as suas parcas economias. O negócio da venda de carros velhos é descrito pelo autor como um exemplo carismático da economia capitalista, onde a parte mais importante do negócio reside na percentagem de lucro “Quanto demos por esta gerigonça? Trinta ou trinta e cinco dólares, não foi? E ele deixou a parelha de muares, que há-de dar, pelo menos, uns setenta e cinco dólares; (…) e arranquei-lhe mais cinquenta à vista e um contrato de quatro prestações mensais de dez dólares cada uma.” (Steinbeck 2002:77), que perfaz 165 dólares. Neste excerto da obra podemos estabelecer uma relação directa com a proposição marxista sobre a teoria do valor “As mercadorias têm um valor de uso específico, que corresponde a uma necessidade humana específica. Têm, também, um valor de troca, não especifico” (Marx in Calvez 1975: 341). Os Joads tinham uma necessidade imperativa em comprar o meu de transporte que os levaria ao sonho, o vendedor de carros tem necessidade de vender porém o valor da troca, depende de vários factores especialmente da procura. Uma família, avô e avó, pai e mãe, quatro filhos, um genro e o único elemento exterior à família tratava-se de um ex-pregador religioso que o filho, ex-presidiário, tinha encontrado no seu regresso a casa. O avô teve de ser submetido à ingestão de um medicamento de forma a poderem viajar, porque ele não queria partir, não queria deixar as terras que ele próprio tinha tido grande esforço em retirar aos índios “O avô havia-se apoderado da terra: tivera de matar os índios e de os expulsar” (Steinbeck 2002:41).A viagem foi longa e atribulada quer devido ao transporte velho que os levava quer aos problemas com os viajantes. O avô acaba por morrer logo no início da viagem e quando chegam ao Estado da Califórnia a avó também já estava morta, entretanto o genro decide separar-se da mulher grávida e procurar outro rumo de vida. O ex-pregador em posição de defesa e protecção de Tom, o filho ex-presidiário, é preso. Quando a família encontra trabalho pela primeira vez estão reduzidos em número de oito.À medida que iam avançando em direcção à Califórnia a motivação, a alegria e a esperança ia diminuindo e o medo a aumentar, porque começavam a ouvir histórias de casos sem sucesso e desespero e de um forte êxodo no mesmo sentido. Era demasiada gente à procura de trabalho.Em termos económicos os Estados Unidos começam a ter problemas também na produção agrícola, especialmente com o fim da Primeira Guerra e a falta do seu mercado exportador. O desemprego aumenta, e os salários diminuem. Em termos de mão-de-obra a oferta era demasiado alta e a procura baixa, logo os salários diminuem. As pessoas para evitarem morrer de fome, trabalhavam por qualquer valor “Quanto mais gente esfomeada eles arranjam, menos precisam de pagar como salário” (Steinbeck 2002: 224). Por outro, lado começam a surgir os sindicatos com firmeza. Os grandes latifundiários atacam o governo, os sindicatos, os impostos como sendo mais uma das razões dos seus problemas.O autor ao longo da obra parece ter uma aproximação ideológica ao Marxismo, porque utiliza conceitos de propriedade pública, quer da terra quer da tecnologia quer de recursos “ (…) nasce algo mais perigoso: «eu tenho algum pão» mais «eu não tenho nenhum». E o resultado desta soma é: «nós temos alguma coisa»” (Steinbeck 2002:179).Face às revindicações e às agitações entre trabalhadores rurais e proprietários, grupos de trabalhadores são denominados de vermelhos, comunistas e bolchevistas “- Pois sou mesmo – disse Tom. – Sou um bolchevista” (Steinbeck 2002:227). A estas revindicações a polícia respondia com violência, fazendo prisões e mortos. Em termos políticos, com a implantação do regime comunista na URSS, com a revolução ganha pelos bolcheviques em 1917, havia um receio deste avanço ao continente americano nomeadamente aos Estados Unidos. É também por esta altura que se formam e legalizam por toda a Europa os Partidos Comunistas.Os trabalhadores rurais viviam em condições demasiado precárias, em tendas, barracas, sem água sem comida, sem trabalho, sendo muitas das vezes obrigado a roubar e a mendigar. As mortes causadas por fomes eram uma constante. 

Do sonho à dura e irada realidade O primeiro impacto que a família tem ao chegar à Califórnia é de deslumbramento. A paisagem era verdejante, viram muitos terrenos de cultivo, que para eles teria um significado traduzido em trabalho, logo dinheiro. Mas… o sonho de imediato passa a pesadelo. Começam por perceber que em termos sociais e locais não eram bem recebidos, havendo forte confrontos racistas, e perseguições policiais aos “Okies” (- Mas agora você não está na sua terra, percebe? Está na Califórnia, e nós não queremos aqui esses Okies danados como você!” (Steinbeck 2002:252). Este termo adquiriu um sentido pejorativo, era uma forma de tratar mal uma pessoa, significava ainda alguém que tenha um estilo de vida miserável, embora a sua origem remetesse para os primeiros migrantes do Oklahoma, como diminutivo “ Bem, antigamente, «Okie» era aquele que vinha de Oklahoma. Agora é o mesmo que chamar a um tipo filho da mãe. «Okie» quer dizer que o sujeito é um merda” (Steinbeck 2002: 242).    Em termos territoriais a Califórnia tinha sido pertença do México, porém faz parte do avanço dos americanos e termos ocupacionais. Era uma região muito fértil e desejável e por isso motivo de constantes vagas de migração ao longo dos tempos. Após essa apropriação e devido à agricultura que aí se desenvolveu, crescem o regime de latifundiário e socialmente de trabalhadores passam a proprietários e empresários agrícolas. A região está também simbolicamente ligada ao desenvolvimento social, humano e económico do indivíduo.Nesta época e devido à crise económica e social, os desejos dos indivíduos que ocupavam o território californiano dividiam-se. De um lado os que queriam apenas ter terra para trabalhar e dinheiro para comer e do outro lado os queriam acumular riqueza, ascensão social e luxos. Para além da divisão de classes sociais, o conceito de mais-valia e acumulação são também proposições marxistas que mostram a falência do capitalismo “Normalmente, o capitalista não consome inteiramente a mais-valia, a qual, por isso, se acumula, crescendo assim o capital indefinidamente, pela soma das mais-valias” (Marx in Calvez 1975: 342).Nos acampamentos havia por parte dos trabalhadores, devido às condições precárias e desemprego, uma vontade de revolução e apropriação dos bens, terra, aos ricos “Porque é que a gente se não reúne para aí uns vinte, e não toma um pedaço de terra?” (Steinbeck 2002:278). Por esta citação facilmente se depreende, o conceito de revolução das massas do proletariado no qual Marx, vê como motor essencial no processo revolucionário e de mudança com vista o comunismo “Para Marx, é, nem mais nem menos, a revolução social. É assim que ele passa ao comunismo, sob a influência do movimento operário” (Calvez 1975:29).O autor faz ainda referência a um estilo de vida comunitário, com apoio do Estado, no qual os trabalhadores vivem segundo regras próprias do acampamento, regras produzidas pelo comité “O comité central mantém a ordem e elabora o código que deve regular a vida no acampamento” (Steinbeck 2002:340). Estes acampamentos estão associados aos “vermelhos” e neles a vida era limpa, saudável, solidária, unida, organizada, seguro, um luxo consideravam, ao contrário de outros acampamentos por onde normalmente estes trabalhadores passavam. Possuíam escolas, casas de banho com sanitas e chuveiros com água quente, departamentos sanitários. Tudo isto era bonito e bom de mais para os Joads, que estavam maravilhados e contentes por ter tido a oportunidade de viver aqui e se sentiam de novo gente “ – Pois é isto, voltei a sentir-me gente.” (Steinbeck 2002:364).A família Joad porque não tinha trabalho, vê-se obrigada a sair do acampamento do governo e fazer algumas milhas mais, porque havia uma propriedade que necessitava de mão-de-obra longe dali. Eles quando chegam a essa propriedade de imediato começam os labores agrícolas e instalam-se em vagões que serviam de “casa” a mais do que uma família. Há um regresso às más condições, à fome, ao desespero à ira.Tom tinha-se envolvido em conflitos grevistas, pelo que devido à sua condição de liberdade condicional é obrigado a passar à clandestinidade. A filha abandonada pelo marido começa a sentir-se estranha. Ainda não era altura para parir a criança, mas algo se passava. O pai andava desorientado com a falta de trabalho e o pouco que iriam ganhar naquela propriedade, que não chegava para alimentar a sua família, principalmente os mais pequenos que se voltavam a queixar de fome. 

Conclusão  Neste livro para além da dimensão ideológica marxista fortemente marcada pela escrita realista, há também recurso à simbologia material e religiosa “Na epopeia moderna de Steinbeck, que reflete justamente essas experiências, está implícita uma mitologia que se presentifica pelos símbolos atravessando o romance praticamente desde a primeira até a última página (Olmi online 2004).Mencionei conceitos marxistas ao longo do texto, mas muitos optei por fazê-lo aqui na conclusão para o trabalho não ficar demasiado teórico. Assim, para além dos já referidos, encontramos na obra de Steinbeck os conceitos marxistas de bem comum, o acesso à cultura e educação e visão da revolução como um produto de um processo histórico “Quando uma maioria passa frio e fome, tomará à força aquilo que necessita. E também o facto gritante, que ecoa por toda a história: a repressão só conduz ao fortalecimento e união de todos os oprimidos. Os poderosos proprietários ignoram três gritos da História.” (Steinbeck 2002:280).Steinbeck refere também a introdução de novas tecnologias e fertilizantes, químicos nas explorações agrícolas, que produzem maior e melhor produção mas geram mais desemprego, e salários mais baixos. Aqui faz referência ao conceito e aos “homens da ciência” (Steinbeck 2002:417) económica, através do recurso da simbologia e metáforas, diz: “Cuidaram das árvores,

sem vender a colheita, podaram e enxertaram e não puderam colher as frutas. Os homens da

ciência trabalharam e meditaram e as frutas apodrecem no chão e a mistura deteriorada nas cubas d

e vinho empesta o ar. E provem o vinho…nada nele existe do aroma das uvas; há somente enxofre,

ácido tânico e álcool” (Steinbeck 2002:417).  Já conhecia este livro, já me tinham falado deste romance, havendo mesmo um filme baseado neste texto, pelo qual fiquei com muita curiosidade em ver. Muitas das vezes a produção fílmica foge à produção literária que lhe deu origem. Terei de o ver.O livro é de facto de estilo literário, romance, porém tem uma descrição realista de uma verdade que pode ir contra e por em causa muitos princípios desde religiosos, políticos, sociais, económicos e outros.O autor é bastante descritivo, mas a leitura é agradável tendo mesmo alguns episódios bastante engraçados, no drama. Para a pesquisa do enquadramento do romance na história da América do norte, recorri também à Internet e verifiquei que um professor de economia na Universidade do Minho, ao qual fiz referência, tinha também feito um trabalho deste género mas enquadrando na cadeira de economia e publicado numa revista científica.O título que atribui ao meu trabalho, não é perceptível a quem não conhece a obra. Este título prende-se com a cena final do romance, é como que um êxtase do drama da obra, a fome e a miséria. A filha grávida dos Joads, na última mudança de acampamento encontrava-se mal, indisposta. A mãe sabia que ainda não estava na altura do parto, mas realmente a indisposição piorou e o parto aconteceu… nasce um feto morto.O tio da parturiente é uma figura ao longo do romance quase apagada, era uma pessoa reservada que achava que tinha muitos pecados, um verdadeiro pecador. Onde tocava estragava tudo. Este homem sozinho e solitário tinha permitido que a sua esposa morresse durante o parto do seu filho por negligência. Ele nunca se perdoou e Deus também não lhe perdoava, dizia ele.Quando o parto acabou a jovem adormeceu, sem saber do que tinha acontecido. Chovia muito, os homens andavam ocupados a tentar construir um dique para tentar parar o aumento da água, mas não conseguiram pelo que regressam ao vagão. Então deparam-se com aquele cenário de mais uma morte, mais um enterro, tendo desta vez a tarefa em mãos o tio. Ele ao contrário de enterrar a criança, decide colocá-la numa caixa manda-la na corrente do rio e diz:- Vai, vai, rio abaixo e conta ao mundo. Vai descendo, pára na estrada, apodrece e conta ao mundo o

 que aconteceu. É a única maneira que tens de contar as coisas. Nem sei se és menino ou menina,

 nem quero saber. Vai descendo até à estrada. Talvez então o mundo fique sabendo.” (Steinbeck 2002:535)    

Esta cena é como que a preparação para o acto final. A cena final desencadeia-se com mais uma fugida. A família tem de sair daquele local que irá ficar inundado. Fogem e refugiam-se num celeiro que encontram. Quando lá chegam encontram dois vultos. Um uma criança e o outro um adulto que estava a morrer de fome, há sete dias que não comia…Á parturiente que estava toda molhada, e debilitada despem-na, a mãe e outra senhora. Olham uma para a outra. Neste olhar tudo se percebe, principalmente a morte. A rapariga pelo olhar consegue comunicar com a mãe, pede para que todos saiam, a mãe concorda. Todos se retiram e ela aproxima-se do vulto imobilizado e débil, com dificuldade retira o cobertor que lhe cobria a mama, e diz: “- Tem de ser.(…) – Ora vá! Então!” (Steinbeck 2002:543), como se estivesse a alimentar o seu próprio filho, e ao mesmo tempo a tentar alimentar mais uma pessoa para evitar mais uma morte.Quanto ao título da obra, as vinhas são todo o conjunto de frutas que supostamente haveria para apanhar e a ira provocada nas pessoas que se sentiram enganadas e levadas para um estado de miséria.  

 BIBLIOGRAFIA - STEINBECK, John, 2002 “ As vinhas da Ira”, Barcelona: Printer, S.A

.- CALVEZ, jean-Yves, 1975, “O Pensamento de Karl Marx”, Porto: Livraria Tavares Martins

- MOURÃO, Paulo Reis, 2005, “Falando sobre a Economia a partir de “As Vinha da Ira”, in Economia e Sociedade, vol. 14, nº 2 (25), Campinas, pp. 375-383 

WEBGRAFIA: - Wikipédia: Grande Depressão, [online]. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Grandedepressão (acesso em 04-12-2007)

- Universidad Complutense de Madrid: As vinhas da Ira: entre realismo e simbologia, una página da história americana. Disponível em: http://www.ucm.es/info/especulo/numero26/index.html (acesso em 04-12-2007)  

 
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